Era uma vez…
Alda Merini
poetisa italiana (21 Março 1931, Milão)
Nasci em 21 na primavera
Nasci em 21 na primavera
mas não sabia que nascer louca,
abrir os torrões
pudesse desencadear tempestade.
Assim Proserpina leve
vê chover sobre as ervas,
sobre os grossos trigos gentis
e chora sempre à noite.
Talvez seja sua prece
(Alda Merini, "Vuoto d'amore", Einaudi 1991)
Toalete
O triste toalete da manhã
corpos desiludidos, carnes decepcionantes
Em torno do lavado
A negra peste de coisas infames.
Oh, este tremor de obscenas carnes,
Este frio escuro
E o cair mais desumano
De uma doente ao chão.
Isto o atolo que a estratosfera
Nunca conhecerá, isto a infâmia
Dos corpos nus postos a estalar
Debaixo a luz atávica do homem
(Alda Merini, "Vuoto d'amore", Einaudi, 1991)
A lua ilumina os jardins do manicomio
A lua ilumina os jardins do manicomio,
algum doente suspira,
mão na algibeira nua.
A lua pede tormento
e pede sangue aos presos:
tenho visto um doente
morrer dessangrado
debaixo da lua acesa.
(Alda Merini, "Vuoto d'amore", Einaudi, 1991)






